segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Entenda porque o tio King gasta até anos fazendo introduções


Bom, primeiramente vale ressaltar que esse é um texto IMENSO. Mas, em contrapartida, muito interessante. Aqui, com certeza, você ficará sabendo um pouquinho mais sobre a mente brilhante de Stephen King.
O site The Atlantic faz, semanalmente, uma entrevista com os escritores, o qual contam suas passagens favoritas na literatura, e também - é claro - falam um pouco de si. O entrevistado dessa semana foi Stephen King (ooh!, sério?!), o qual nos contou MUITA coisa bacana sobre seus livros. Com essa "entrevista" dá para se ter uma boa noção e conhecer algumas coisas.
Como o texto é realmente grande, não vou me estender muito na introdução. Então, confiram a matéria traduzida:


Porque Stephen King gasta “meses e até mesmo anos” escrevendo introduções para suas novelas.
O autor de clássicos do horror como “O Iluminado” e sua sequência, “Dr. Sleep”, fala que os melhores escritores se ligam com seus leitores com as palavras, não com suas ações, apenas.
By Heart é uma série na qual os autores compartilham e discutem suas passagens favoritas de todo o tempo na literatura. Stephen King nos brinda com duas novelas em 2013 – um deles já se encontra nas estantes e o outro está próximo. Em Junho, Joyland foi publicado pela Hard Case Crime, uma impressão que apresenta clássicos e autores de crimes contemporâneos em edições de capa dura, vestido com antigas pastas. Ainda que a história de Joyland seja assombrada por um terrível assassino de mulheres jovens, o livro relata principalmente os ritmos de saudade de um verão adolescente – conversas carnavalescas e brinquedos de pelúcia, calçadões e corações partidos. No New York Times, Walter Kirn apropriadamente comparou o livro a um passeio justo – é curto, emocionante e docemente pitoresco.
O segundo livro do Stephen King a ser lançado, Dr. Sleep, que será publicado em setembro pela editora Scribner, é tudo que Joyland não é. Em seu website, o autor o chama como “bolas no muro, mantenha as luzes ligadas no horror”. Essa longa espera pela sequência de O Iluminado, publicado em 1977, revisita os traumas psíquicos da criança Danny Torrance – que se chama Dan, agora –, crescida e ainda lutando para entender seu presente assustador.
“É um bom livro, um livro assustador, mas eu receio que as pessoas não irão gostar tanto quanto do livro original”, King me falou. Os atores do primeiro filme estão 35 anos mais velhos agora. “Eu posso ouvir todo mundo falando, ‘Isso não é tão assustador. O primeiro realmente me assustou.’”, ele diz. “Bem, é porque você leu o primeiro livro quando tinha a merda de 13 anos, se escondendo embaixo das cobertas com uma lanterna”.
Quando lhe pedi para compartilhar sua passagem favorita dessa série, King não conseguiu escolher entre duas; ambas, notamos, foram as primeiras frases. Então, ele analisou ambas as escolhas, como parte de uma discussão mais ampla sobre as primeiras palavras do livro, um assunto não abordado profundamente em seu livro “On Writing”. King pagou tributos a Douglas Fairbairn e James M. Cain, olhando novamente para suas introduções favoritas e explicando como ele aborda os primeiros momentos de um livro. Stephen King falou comigo por telefone, em sua casa no Maine.
Stephen King: Há todos os tipos de teorias e ideias sobre o que constitui uma boa linha introdutória. É uma coisa complicada e difícil de falar sobre, uma vez que eu não penso conceitualmente enquanto eu trabalho em meu primeiro esboço – eu apenas escrevo.
Mas há uma coisa de que eu tenho certeza. Uma linha introdutória deve convidar o leitor para dentro da história. Ele deve falar: escute. Venha aqui. Você precisa saber a respeito disso.
Como pode um escritor estender um convite atraente – um que é difícil até mesmo para recusar?
Todos nós já ouvimos os conselhos que os professores dão: abra o livro no meio de uma situação dramática ou convincente, porque imediatamente você ganha o interesse do leitor. Isso é o que nós podemos chamar de “gancho”, e é verdade, até certo ponto. Esta sequência de James M. Cain, The Postman Always Rings Twice, certamente pluga você em um tempo e lugar específicos, apenas como algo que está acontecendo:
Eles me atiraram para fora do caminhão de feno ao meio dia.
De repente você está direto dentro da história – o narrador é suspenso pelo caminhão de feno e fica descoberto. Mas Cain retira muito mais do que um ambiente carregado – assim como fazem os melhores escritores. Essa sentença lhe diz mais do que você pensa. Ninguém está andando no caminhão de feno porque compraram um bilhete. Ele é, basicamente, um vagabundo, alguém do subúrbio, alguém que vai roubar e surrupiar para sobreviver. Então você sabe bastante coisa dele logo no começo, mais do que provavelmente pode ser registrado pelo seu psicológico e você começa a ficar curioso.
Essa abertura conclui algo como: é uma rápida introdução para o estilo do escritor, outra coisa boa que as primeiras frases tendem a fazer. Em “eles me atiraram para fora do caminhão de feno ao meio dia”, nós podemos ver imediatamente que não vamos entrar em um monte de merda espalhafatosa. Não vai ser nenhuma linguagem muito florida, sem chacotas. A narrativa do veículo é simples, tranquila (para não mencionar que o livro que você está segurando é de apenas 128 páginas). Que coisa linda – rápida, limpa e fatal – como uma bala. Somos garantidos a apenas seguir em frente com a leitura.
É claro que é como um “leia agora ou morra” para o leitor. Uma primeira linha realmente ruim pode me convencer a não comprar o livro – porque, Deus, eu já tenho livros abundantemente – e um estilo pouco atraente nos primeiros momentos é motivo suficiente para pular fora. Eu nunca vou esquecer as páginas remendadas com a introdução de A. E. Van Gogt – um escritor alemão de ficção científica, morto há muito tempo. Seu livro Slan foi a base sobre os filmes atuais de Alien – eles basicamente roubaram sua ideia ao fazerem os filmes –, mas ele era um escritor terrível, terrível. Seu conto, “Black Destroyer”, começa:
Sem parar, benzinho rondava!
Você lê isso e pensa – Meu Deus! Posso continuar lendo, pelo menos mais cinco páginas desse livro? É basicamente ofegante!
Então um contexto intrigante é empolgante, e assim é o estilo. Mas, para mim, uma boa introdução começa realmente com expressões. Você ouve muito as pessoas falarem sobre “expressões”, quando eu acredito que elas apenas queriam falar sobre “estilos”. Expressão é muito mais que isso. Pessoas vêm aos livros procurando alguma coisa, olhando algo. Mas elas não vêm pela história, ou até mesmo pelos personagens. Elas certamente não vem pelos estilos. Eu acredito que os leitores vêm pelas expressões.
Uma novela expressiva é como um cantor – pense em cantores como Mick Jagger e Bob Dylan, que não tiveram treinamentos musicais, mas foram instantaneamente reconhecidos. Quando uma pessoa pega uma música dos Rolling Stones é porque ela está buscando uma qualidade característica. Eles conhecem aquela voz. Eles amam aquela voz. E algo dentro deles se conecta profundamente com aquela voz. Bem, é a mesma coisa com livros. Alguém que lê muito John Sanford, por exemplo, sabe que aquela voz sarcástica, irônica e divertida é dele, e só dele. Ou Elmore Leonard – meu Deus, sua escrita é como uma impressão digital. Você a reconhece em qualquer lugar. Uma voz atraente alcança uma conexão íntima –, uma ligação muito mais forte do que o tipo forjado, intelectualmente, através da escrita artesanal.
Com livros muito bons, um poderoso senso de expressão se estabeleceu na primeira linha. Meu exemplo favorito é da novela de Douglas Fairbarn, Shoot, que começa com um confronto na floresta. Existem dois grupos de caçadores de diferentes partes da cidade. Um levou um tiro acidentalmente, e ao longo do tempo a tensão aumenta. Mais tarde no livro, eles se encontram novamente na floresta para travar uma guerra – eles reencenam o Vietnam, essencialmente. E a história começa assim:
Isso foi o que aconteceu.
Para mim, esta sempre foi a essência das introduções. É plana e limpa, como um depoimento. Ele simplesmente estabelece o tipo de locutor com quem estamos lidando: alguém disposto a falar: “Eu vou lhe contar a verdade. Eu vou lhe contar os fatos. Eu vou cortar o papo furado e lhe mostrar exatamente o que aconteceu. Isso também sugere que há uma importante história aí, de uma maneira que diz ao leitor: “e você quer conhecê-la”.
Uma linha como “isso foi o que aconteceu”, na realidade não quer dizer absolutamente nada,  mas isso não importa. Isso é uma expressão, e um convite, que, para mim, é muito difícil de recusar. É como achar um bom amigo que tem valiosas informações para compartilhar. Alguém está aqui, é o que ele diz, alguém que pode promover entretenimento, e escapar, e até mesmo talvez um caminho olhando para o mundo que vai abrir os seus olhos. Nas novelas, isso é irresistível. Esse é o motivo de lermos.
Nós falamos muito do leitor, mas você não pode esquecer que a introdução é muito importante ao escritor, também. Para a pessoa que, atualmente, coloca a mão na massa. Porque também não é apenas a maneira do leitor ler, é a maneira do escritor também, e você tem que achar uma fresta que os conectem. Acredito que esse é o motivo de meus livros começarem assim. Eu primeiramente escrevo a introdução, e quando eu acertei, eu começo a achar que realmente temos alguma coisa.
Quando estou começando um livro, eu escrevo na cama, sempre antes de dormir. Eu fico lá no escuro pensando. Tento escrever um parágrafo. Uma introdução para o parágrafo. E depois de um período de semanas e meses e até mesmo anos, e o escrevo e reescrevo até me sentir satisfeito com o que eu tenho. Se eu conseguir escrever bem o primeiro parágrafo, eu sei que posso terminar o livro.
Por causa disso, eu acho, minhas introduções cravam em mim. Há uma fresta pela qual eu posso passar. A introdução de Novembro de 63 é “Eu nunca fui o que você chamaria de um bebê chorão”. A introdução de Salem (antigo “A Hora do Vampiro”) é “quase todo mundo pensava que o homem e o garoto fossem pai e filho”. Percebe? Eu me lembro delas! A introdução de “A Coisa” é: “O terror, que não iria acabar por mais 28 anos, se é que realmente acabaria, começou mais depressa do que posso contar ou, até mesmo, que eu sei, com um barco feito de uma folha de jornal flutuando através de uma sarjeta inundada pela chuva”. Foi uma das quais eu trabalhei mais, mais e mais.
Mas eu posso lhes dizer agora que a melhor introdução que eu já escrevi – a qual eu aprendi com Caim, que aprendeu com Fairbairn – foi a introdução de “Trocas Macabras”. É uma história sobre esse cara que vem para a cidade, e usa aversão e animosidade entre os habitantes da cidade, para chicotear todos em um frenesi de vizinhos contra vizinhos. E assim começa a história:
Você já esteve aqui antes.
Tudo que há por si só em uma página, convidando o leitor para continuar lendo. Isso sugeste uma história familiar; e no mesmo tempo, a apresentação incomum nos leva fora da esfera comum. E isso, de certa forma, é uma promessa do livro que está a caminho. A história de vizinho contra vizinho é a mais velha do mundo, mas, mesmo assim, ela está dizendo (espero) que é estranho e um pouco diferente.
Ainda assim, eu não tenho um monte de livros onde a introdução é poética, ou mesmo bonita. Algumas vezes é perfeitamente bem feita. Você tenta achar alguma coisa que vai oferecer um caminho crucial, de qualquer modo, seja qual for, desde que ele funcione. Essa aproximação é próxima do que trabalhei em meu novo livro, Dr. Sleep. Tudo o que lembro são as coisas saltando do tempo em que escrevi O Iluminado, até mesmo ao presente, falando de presidentes, mesmo sem usar seus nomes. O presidente agricultor de amendoim, o presidente que atuava, o presidente que tocava saxofone, e assim por diante. A sentença é:
No segundo dia de Dezembro, num ano em que a fazenda de amendoins Georgia estava fazendo trabalhos para a Casa Branca, um dos grandes hotéis do Colorado foram queimados até o chão.
Três coisas são supostas. Ele lhe define o tempo. Ele lhe define o lugar. E ele recorda o fim do livro – ainda que eu não saiba que ele vai fazer muita coisa boa para as pessoas que apenas viram os filmes; porque o hotel não queima no filme.
Escute, você não pode viver no amor, e você não pode e você não pode criar uma carreira de escritor baseada nas primeiras linhas.

O livro não permanece ou cai nas primeiras linhas do texto – a história está aí, e esse é o trabalho real. E ainda que uma boa introdução possa fazer muito para estabilizar esse crucial senso de expressão – é a primeira coisa da qual você toma conhecimento, que lhe deixa impaciente, que começa a lhe recrutar para o longo prazo. Então há um poder incrível nisso, quando você diz, “venha até aqui. Você precisa saber sobre isso. E alguém começa a ouvir.
E aí, o que acharam?
Fonte: The Atlantic 

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